Carta aberta a uma planta

Raquel Alberti
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Carta aberta a uma planta

Querida planta, sempre ouvi dizer que devemos conversar com todas vocês. O mundo trouxe a nós o seu poder, e cá estou eu querendo te agradecer por meio desta carta.
Faz pouco mais de um ano que você, planta querida, entrou em nossas vidas. E entrou na vida do meu filho. Dia 17/12/2021 celebramos um ano do tratamento dele.

Pensei em fazer um vídeo, fotos, mas na verdade nem sei o que falar nesse momento. São tantas coisas minha plantinha… Há cerca de um ano e meio conheci você, e até hoje não entendo porque não a introduzi na vida do meu filho assim que comecei a te estudar. Ao refletir sobre isso, cheguei a conclusão de que eu era uma daquelas pessoas no processo de entender como você funciona, e que seu uso não é só como tinham me apresentado. Minha cara plantinha, a sociedade é assim, as pessoas levam tempo pra entender o quanto você é potente. Um ano atrás a minha vida era completamente diferente do que é hoje.


Sinto muito por você ter que passar pelo que tem passado. Sabemos que você está presente na vida da sociedade desde a antiguidade (papiros não me deixam mentir), mas nossa realidade atual é dura. Por isso há mais de um ano luto bravamente para que você tenha reconhecimento.
Desde que comecei a estudá-la, conheci muitas outras pessoas que também nadam contra a corrente lutando por você, tentando provar o quanto é poderosa. Não perdemos a esperança, as portas lentamente estão se abrindo para você!
Sempre me lembro de uma carta escrita por um índio chamado Seatlle. Ele era o chefe de uma aldeia e respondia a uma oferta do “grande chefe de Washington” que queria comprar as terras indígenas. Ele diz:

“A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.”

Essa carta é muito importante na minha vida, e me faz lembrar muito de você, plantinha.


Assim que comecei a te usar publiquei a respeito nas redes sociais. E o primeiro apelido que recebi foi “Zé droguinha”… Fiquei muito chateada, mas, como falei acima, a sociedade ainda passa por um processo lento de perceber que você é simplesmente um ser que veio da Terra.


Eu sinto muito mesmo, e fico muito triste em ver o que você tem passado. Se alguém te planta, geralmente é escondido, porque se descobrem matam você – e junto a esperança de muita gente.


Hoje não posso discriminar ninguém que use você, seja de forma recreativa ou de outras formas. Mas a sociedade não te vê assim. Pessoas ainda são presas, pessoas ainda são
discriminadas e incriminadas, o governo ainda é contra você, os médicos ainda são muito resistentes a você – são amigos dos alopáticos e chamam você de droga.


Minha amiga, um ano atrás eu passava dias e dias segurando a cabeça do meu filho para que ele não a batesse na parede em momentos de crise. Ele também agredia a si e aos outros. Vivia isolada com meu filho dentro do transtorno do espectro autista. Não podia sequer pensar em sair com ele para comprar pão ou ir numa festa. As noites aqui em casa não eram de descanso, o tempo todo tínhamos de levantar para colocá-lo na cama novamente, pois ele acordava sempre. A escola era um desafio constante, para ele e para nós. A partir do momento que você apareceu em nossas vidas, as coisas mudaram.


A primeira vez que a médica do meu filho o viu depois que ele começou a usar você, ficou surpreendida. Mas mesmo assim sua postura foi de rigidez. Muitos agem assim. Entendi, respirei e pensei em todas as pessoas que passam pelo mesmo processo que eu. Com o passar dos meses, a cada vez que eu levava o meu filho para se consultar com ela, mais surpresa ela ficava. Hoje já é minha aliada, e está estudando cada vez mais sobre você – inclusive está te utilizando com outros pacientes.


Desejo que cada vez mais médicos te abracem, e possam assim auxiliar seus pacientes com você. Depois que começamos a usar você em meu filho surpreendemos a todos, terapeutas, escola, família. E com orgulho explicávamos que a “culpada” era você.


Sabe, nossa jornada começou um dia eu disse para uma amiga que não aguentava mais, a minha vida tinha acabado. Ela disse “Calma”, e me pediu para usar você . Também me apresentou alguém que leva a sua bandeira há anos. Ela é incansável! Tem uma clínica que só usa suas potencialidades, e um olhar super verde voltado para você. Sim, temos muitas pessoas que lutam por você, e não pensam em desistir. Acredita que temos até um padre que é seu porta-voz? O nome dele é padre Ticão. Eu digo que ele é sua voz, mesmo já tendo morrido, porque ele deixou uma herança maravilhosa sobre você aqui.


Quando o padre Ticão morreu, meu filho tinha acabado de começar a se tratar com você. Ele não tinha interação nenhuma, mas durante a live em homenagem ao padre essa amiga que eu mencionei acima juntou as mãos e disse ”Seguimos juntos, mãos dadas, coladas com super bonder!” E você nem vai acreditar… meu filhote repetiu o gesto na mesma hora, olhando para a câmera. Nossa, aquilo marcou muito o início de tudo. Ficamos todos sem acreditar, emocionados, como se ele tivesse sido abençoado naquele momento. Tive a sensação de que tudo mudaria. E mudou, viu, hoje estou aqui para te contar.


Introduzir você na vida do meu filho foi muito fácil. Ele não teve efeitos colaterais ruins. Pelo contrário, as primeiras gotinhas já trouxeram alguns resultados positivos. Mas quando eu dizia que usava você a pessoas próximas de mim, o silêncio tomava conta. Hoje elas já se acostumaram. Nesse início eu tive um super apoio de um médico maravilhoso, que esteve presente para tudo que precisei. E olha que coincidência, o nome dele também tem verde… Ele sempre foi tão parceiro que um dia estávamos sem luz aqui em casa e ele insistiu até conseguir falar comigo, porque sim plantinha, nem tudo são flores, tivemos momentos difíceis após sua introdução também, mas tudo é uma questão de calma , paciência, bem como diz aquela minha amiga do super Bonde: “Calma, você ainda não viu nada, vai ver muito mais!”


Sabe, o transtorno do espectro autista exige uma equipe multidisciplinar, e sempre entendi que você faz parte dela. Faz seu papel internamente, e meus queridos terapeutas, a quem devo muito por sua dedicação, também foram fundamentais nas melhoras do meu filho. Observo muito que a sua função dentro do nosso organismo você faz com esplendor, e a função dos terapeutas e pessoas envolvidas é aproveitar suas potencialidades. Você faz ali e nós aqui, e isso é sensacional!


Quero te dar uma notícia ótima! Meu filho não está mais no nível III. Ele progrediu demais, hoje até conversa, sabia? É um garoto de sorriso largo, sem crises, e suas capacidades estão cada vez mais evidentes. Você vai nem acreditar mas hoje vamos ao shopping, almoçamos em restaurante, vamos a parques. Não preciso evitar mais nada com ele, e tenho orgulho de mostrá-lo à sociedade. Até as pessoas do comércio local ficam emocionadas em vê-lo atualmente. Na escola, tudo mudou. Ele está iniciando lindamente seu processo de alfabetização, brinca com os colegas, chega na escola, diz “tchau mamãe” e fecha a porta (risos). As professoras ficam cada dia mais impressionadas.
Só fico triste quando vejo pessoas te usando apenas para lucrar. E gente te comprando e usando de qualquer jeito, sem pensar no quanto você é séria. Você tem uma simplicidade ímpar, mas te utilizar exige muita seriedade e comprometimento.


Por falar em estudo, amiga, hoje trabalho como neuropsicopedagoga atendendo pessoas que usam você, e me realizo em poder ajudá-las. Também estou participando da equipe de um estudo sobre você em uma universidade. Sim! As universidades estão te estudando, viu! Eu fui convidada por um grande médico aqui da minha região, ele carrega sua potência há muitos anos e adivinha, ele ensina também aos futuros médicos da universidade sobre você. E também me apresentou um grande aluno dele, que é hoje meu grande amigo, meu companheiro de pesquisa e futuro médico.
Viu, plantinha, tanta coisa para falar, tanta coisa para te dizer, te agradecer… Mas neste momento, quero te deixar uma mensagem: Estamos aqui. Não se preocupe. Um dia você vai tomar seu lugar, e todos vão perceber que você, maconha, é o remédio da vida!

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