Da cannabis ao diagnóstico tardio de autismo

Barbara Gael
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Conforme prometi no texto O autismo… são vários, hoje conto para vocês meu processo até o diagnóstico.

Como toda minha geração, cresci achando que autismo era apenas o severo. Passei a vida me sentindo diferente, inadequada. Muita dificuldade nas interações sociais, humor flutuante, apego a rotinas, problemas sensoriais. Mas o único diagnóstico recebido tinha sido de Transtorno de Ansiedade Generalizada e Depressão (TAGD). Fazia sentido, nunca contestei.

Os mitos sobre autismo

Nos últimos anos tive mais informações sobre asperger e autismo leve, e a dúvida surgiu. Quanto mais lia, sobre aspergers em especial, mais me identificava. Só que pareciam descrever apenas gênios, e eu não me via assim. Sabia ter QI acima da média (147), mas isso só me confundia. Não entendia como podia ter inteligência “superior” e tantas dificuldades na vida cotidiana, em interações ou algumas tarefas simples.

Esse mito do asperger como gênio, criança-prodígio retardou minha chegada no diagnóstico tanto quanto outros mitos sobre autistas. Quando tomei coragem de falar com minha psicanalista sobre a suspeita ela riu: “Imagina! Com essa empatia!” De outra psicóloga ouvi: “Não, você tem capacidade de comunicação”. A visão delas também era sujeita aos mitos…

A cannabis e as mães

Em 2019 comecei a me tratar com cannabis. Três meses depois já via uma melhora na depressão, no foco, na ansiedade, na irritação, que nunca havia conseguido em 20 anos de remédios psiquiátricos. Pude desmamar o ansiolítico que usava há 10 anos.

Mergulhei no universo canábico, pesquisando tudo. Acabei criando um grupo de informações sobre o tratamento. Nele me aproximei de mães de autistas e fui aprendendo sobre o transtorno, sobre cada nível. Assim mitos foram sendo desfeitos. Sim, autistas podem aprender a empatia. E podem se comunicar bem, ser bagunçados, detestar matemática. Cada um com suas características.

Saber que a cannabis é especialmente incrível para autistas e ver o que tinha feito por mim alimentou minha dúvida. Um dia uma das mães, Mari, me passou um teste para adultos asperger. Meu resultado foi alto, 178 em 200, e a dúvida se instalou. Só que na época eu não podia pagar pelo processo de diagnóstico nem conhecia um bom profissional. Passou.

Alguns meses depois, lendo uma matéria sobre a Greta Thunberg, vi que ela se referia ao asperger como “superpoder”. Comecei a chorar. Soluçava, sem entender o porquê. Tentei racionalizar, como sempre faço. “É uma forma melhor de enxergar diferenças.” Mas não era só isso. Então percebi que aquilo me tocava demais para continuar deixado de lado. Consegui com outra mãe, Raquel, indicação de uma neuropsicóloga especializada no diagnóstico em adultos. Marquei uma consulta.

Detecção em adultos

Diagnosticar adultos autistas é bastante delicado. Boa parte das características presentes na infância já foi trabalhada, e assim ocultada – dos outros e/ou de si mesmo. Muito provavelmente eles já terão feito psicoterapias e buscado em cursos etc. formas de lidar com dificuldades de fala, motoras, sensoriais, de interação social. (Eu consegui melhorar a fala com aulas de canto e teatro, os problemas de coordenação com aulas de dança, lutas etc. Na faculdade de Letras desenvolvi a comunicação. E já tenho mais de 20 anos de terapia…)

Autistas têm capacidade de aprender, de evoluir. E fazemos isso a vida inteira – como todo mundo.

Então, o que permanece? Depende da pessoa. Para mim foram os problemas de interação social, a dificuldade de saber minha vez de falar. O sentimento de inadequação. As hipersensibilidades também se mantiveram, amenizadas. E a necessidade de rotinas, como tomar sempre o mesmo café da manhã, fazer os mesmos caminhos pela rua… e odiar viajar, sair do “meu canto”.

A neuropsicóloga fez três sessões de conversa comigo. Nelas observou tudo isso, e também coisas que já são resultados do “mascaramento” que autistas leves, mulheres em especial, adotam desde a pré-adolescência para ser melhor aceitos. (E que geram comorbidades como o TAGD.) Ela notou expressões “estáticas” no meu rosto – que agravam meu bruxismo. E reflexos das características autistas na minha vida, como nunca ter ficado muito tempo num trabalho, não ter aprendido a dirigir, não conseguir manter relacionamentos longos etc.

O diagnóstico

Ao longo do processo foi ficando cada vez mais claro que sim, eu era autista. Estava tudo ali, ao mesmo tempo encolhido e gritando.

Finalmente chegamos na quarta sessão, de leitura do diagnóstico. E ouvi da neuropsicóloga “Autista grau 1, antigamente seria classificada como Asperger”. Era a confirmação que eu precisava, depois daquele processo de mergulho doloroso na infância (até então apagada da memória) e nas minhas dificuldades da vida inteira.

Seis meses depois completei o processo oficial de diagnóstico. Para questões legais, além do laudo é necessária a confirmação deum neurologista ou psiquiatra. Então conversei longamente com meu médico, levando para ele questões que nunca tinha mencionado em consulta. Ele confirmou o diagnóstico e me explicou sobre as mudanças na visão do autismo nas últimas décadas.

O que veio depois, tudo que estudei, aprendi, pensei, mudei depois do diagnóstico… vai ter de ficar para o próximo texto, porque já falei demais e ainda tenho muito a dizer.

Então… até mais!

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Bárbara Gael é tradutora, pesquisadora e mestre em Literatura Brasileira pela USP. Criadora do grupo Tratamento com cannabis, acolhimento e informação, no facebook. E é autista.

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