Então cannabis não é maconha?

Augusto Saraiva
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Cannabis e maconha

Nessa semana me deparei com um artigo que afirmava “Cannabis não é Maconha” embora tal
afirmação me pareça, instantaneamente, absurda me levou a uma reflexão.

Saraivada
substantivo feminino
1.
queda de chuva, de saraiva, de granizo
2.
FIGURADO (SENTIDO)
grande quantidade de coisas que caem como saraiva ou se sucedem em torrente

Na minha mente atípica as coisas são meio “frenéticas”. Tenho a tendência de observar padrões e
comportamentos e de coletar dados os mais diversos sobre múltiplos assuntos. Muitas vezes tudo
fica confuso e desconexo, e aí lembro da palavra “Saraivada”, aquilo que vem em torrente. Com
perdão do repente, penso que assim funciona a minha mente.

Sou Augusto Saraiva, e juro que nunca ouvi a frase que vocês estão loucos pra dizer!

“Seu Saraiva o senhor por aqui!?”

Já que é difícil me livrar do bordão, aviso que vou aceitá-lo e com afeto – como deveríamos fazer
com todos. E digo mais: comigo, informação mentirosa é tolerância zero!

Dito isso, vou falar brevemente do recente artigo da Dra. Patrícia Villela Marino, advogada, em
sua coluna no portal Sechat. Sua afirmação, usada como manchete, foi: “cannabis não é
maconha”. Ela diz: “gosto de explicar que existe um oceano entre cannabis e maconha. E sigo
ressaltando, sempre que possível: cannabis não é maconha – a primeira é fabricada, enquanto a
cannabis nasce da terra. Maconha é uma mistura de muitas coisas, que pouco têm, de fato, de
cannabis”.

Aprendi na escola, nas aulas de Educação Moral e Cívica, que maconha era terrível, deixava a
pessoa burra, violenta e propensa a uso de outras drogas. Ou pior, passar a acreditar em
horóscopo!

Obviamente isso me deixava apavorado, e desconfio que era esse o objetivo. Fiquei longe da
maconha a maior parte da minha vida.
Numa consulta em 2007 o médico me disse: “Maconha é remédio e pode te ajudar!” A minha
mente fez a conexão com o capeta, ônibus lotado, cadeia, minha mãe com cara de brava e o
caderno de horóscopo do jornal ZH. Saí do consultório furioso, pensando besteira. “O crime
organizado está cada vez mais organizado, gizuis.”

Meu preconceito foi uma cortina de fumaça que me impediu de ver os fatos. Cheguei em 2018
vegetativo, sem esperanças de viver muito, médicos dando a batalha por perdida. E só aí resolvi
começar o tratamento com maconha.
De repente a minha mente se acendeu como uma árvore de natal. A princípio confusa, barulhenta
e cheia de imagens, sons, cheiros e memórias. Logo em seguida um caminho se iluminou e surgiu
como… um pop-up do navegador de internet que não conseguimos fechar. E que fica como um
post-it permanente no cérebro, que não vai embora até ganhar minha atenção.

Mas a maconha não deixa burro? Tudo que aprendi na escola tá errado?
Sempre achei que o que move o mundo é a pergunta, e eu tenho infinitas. Então perguntei pro
Google, e veio uma saraivada de informações, artigos, relatos, estudos clínicos. Usando o filtro da
ciência, dos fatos, da verdade científica, do raciocínio lógico e da empatia, preconceitos se
desfazem.

Basta buscar nas fontes da sabedoria, na Ciência, nos artigos do brilhante Dr. Elisaldo Carlini, do
Dr. Raphael Mechoulam e de tantos outros cientistas que estão desvendando os poderes dessa
companheira da humanidade há pelo menos 6000 anos. A planta que foi demonizada, banida e
desmoralizada há cerca de 100 anos, começa a tentar retomar seu lugar de direito.

A estratégia de desinformação e exploração de medos e preconceitos usada no artigo do Sechat
não é nova nem causa surpresa. Desde os primórdios da humanidade há quem se aproveite da
esperança, da ignorância e do desespero de outros em busca de vantagem pessoal.

Afirmar “Cannabis não é Maconha” talvez não seja uma estratégia da grande indústria
farmacêutica para manter o remédio de maconha elitizado, restrito e caro. Pode ser apenas o
velho e enraizado preconceito racial e social. Uma tentativa esperneante da autoproclamada
“elite” tentando semanticamente manter aberto o fosso da desigualdade entre a “cannabis
medicinal” e a “maconha” – a mesma planta transmutada quando na mão do pobre, preto e
periférico, justificando assim a matança desenfreada e eternizando as desigualdades.”
Maconha é cannabis, é cânhamo, é liamba. É remédio sim, é um fitoterápico muito seguro, é uma
planta que poderia e deveria ser cultivada por todos que precisam. Não faz mais sentido tentar
dissociar cannabis de maconha, não faz mais sentido discutir se é medicinal ou não, como não faz
mais sentido ter que explicar que a terra não é plana.

As únicas discussões válidas agora são a maconha como primeira opção de tratamento, o acesso
democrático a remédios e uma política de Saúde Pública que priorize os princípios constitucionais da vida e saúde e a necessária reparação histórica às vítimas da fracassada guerra às drogas.

Não precisa acreditar em mim. Pergunte pro Google se cannabis não é maconha e depois me
conte.

Uma resposta

  1. Excelente artigo. Muito bem argumento em relação a publicação equivocada do Sechat. Muito bom. Parabéns Augusto Saraiva.

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